RITA WAINER: ENTRE CRIAÇÃO, IRONIA E VIDA

O trabalho colorido e inspirado no cotidiano da artista que é filha de Pink Wainer e neta de Danuza Leão.

Terça, 29 de julho de 2014
Lido o tempo todo com criação. Não tenho o hábito de chamar o que faço de trabalho, sei que labuta e inspiração andam juntas, apenas não consigo fazer um paralelo entre o prazer de desenhar ouvindo música e um cara de terno, gravata, dentro de uma agência bancária e sentado em frente a uma fila imensa. Porém, nesse cotidiano entediante e monótono também se faz arte? Ou será que só encontramos arte nos olhos do artista? Só ele é capaz de transformar em poesia o que passa batido lá fora?
Conheci o desenho de Rita Wainer pela internet em um desses momentos de criação em que ver a arte dos outros é divertido e só ajuda. Desde então, tenho acompanhado, do longe mais perto que só a internet pode propiciar, as séries e mais séries de desenhos e pinturas que a Rita faz.



Estilista, figurinista, ilustradora, artista plástica, seu universo é um leque cheio de opções em que a artista parece se enquadrar mais ao perfil de, simplesmente, criadora. Inspirada pelo próprio cotidiano, a arte de Rita nos mostra um mundo de cores, lúdico e de uma leveza lindamente melancólica, espalhado em roupas, pôsteres, objetos e aquarelas. Filha da artista Pink Wainer e neta de Danuza Leão, Rita trabalhou com moda durante dez anos e, em suas coleções, já era possível ver algo mais de uma arte que parecia evidente em suas estamparias. Posteriormente, abandonou a correria das semanas de moda e a produção em escala industrial para se dedicar ao seu ateliê, à pintura e à ilustração.






No desenho de Rita vemos traços fortes e expressivos, num universo lúdico, repleto de meninas chorosas, amorosas e de uma ironia direta em um cenário composto por ursos, corações ensanguentados, estrelas, flores. Rita me faz lembrar uma espécie de Egon Schiele da contemporaneidade, mostrando uma série de personagens que parecem retirados do dia-a-dia de um universo caótico e romântico. Mais recentemente, pratos de porcelana servem como suporte para seus desenhos, feitos em nanquim, aquarela e tinta acrílica, sempre sob uma das frases criadas por Rita, do tipo: “Infeliz demais pra nascer bicho”.





Tive uma rápida conversa virtual com Rita Wainer e ela me respondeu algumas perguntas:

P: Rita, você parece ser aquele tipo de artista que, no momento, não se prende apenas a uma marca, marchand ou galeria. Você acha que a internet ajuda o artista a ser mais livre e, talvez, ela contribua com a velha história do “viver de arte”?
R: Sim, eu acho. Eu acho que a internet democratiza a arte e que, logo mais, todos os artistas vão ter de repensar suas plataformas. Venda direta é sempre melhor para as partes, na minha opinião.

P: Inspiração existe? Vem de onde?
R: Não existe inspiração pra mim, existe vida, que é a inspiração, que é o lugar onde estamos 24 horas, de alguma forma, sempre trabalhando.

P: E referências, quais são as suas?
R: O mundo todo né, não sei te responder. De artista quem sempre me influenciou foi a Frida. Foi ali, aos 17 anos, que eu achei alguém que entendia a minha cabeça. Mas sempre, tudo é referencia e inspiração, basta estar vivo, andando, olhando...

P: Qual é o melhor de dentro do ateliê? A música, a bagunça, a liberdade ou o que?
R: Melhor dentro do ateliê: o processo, o resultado e a liberdade de se ser feliz por estar onde você escolheu, operando o milagre de viver disso...

Pelas palavras da criadora Rita Wainer eu fecho aqui a reflexão em que iniciei o texto: trabalho, arte, criação, inspiração, mundo. Independente do que faça, pra vida, basta saber viver de arte. 

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